O inseto que pousou no seu livro

Novembro 3, 2009

Enxames de abelhas ensandecidas pela cidade não melhoram a fama de ninguém. Elas rondam a cocada e o aldogão-doce, e teimam em se enfiar nas latinhas de refri. Nessa época do ano, estão a mil. Apesar de bonitinhas e úteis, são perigosas. Melhor ficarem elas na delas, e nós na nossa. Sorte de todos: imagina se os livreiros de Porto Alegre resolvessem se inspirar nesses caras da Alemanha? Eles colaram cartõezinhos promocionais a moscas – vamos combinar, um bichinho bem mais nojento que as nossas abelhinhas – para divulgar o estande de uma editora na Feira do Livro de Frankfurt. A ação de gosto duvidoso é o assunto de um dos vídeos mais assistidos nos últimos dias no YouTube – com mais de 450 mil visualizações.


Um churrasquinho para comemorar o Halloween?

Outubro 30, 2009

Pero que las hay, las hay, já dizia um desconfiado da sua própria dúvida sobre a existência de brujas. Na internet, elas não estão nem aí para os descrentes: na véspera do 31 de outubro, desfilam desenvoltas pelos trending topics do Twitter, são assunto de reportagens entre as mais votadas do Digg, viram tema de aplicativos do Facebook. Em tempos de sucesso de livros, filmes e séries de TV sobre vampiros, o Halloween não poderia estar mais na moda.

Apesar disso, um dos vídeos mais “tuitados” do dia deixa de lado o horror e propõe uma abordagem mais nerd da festa: dois rapazes exibem suas sofisticadas fantasias de iPhone.

Ainda para a diversão dos geeks que não deixam a nerdice de lado nem na hora de criar as abóboras de Halloween, o Mashable traz uma galeria de fotos com versões alternativas da clássica decoração.

Mas ok, há os que resistem a essa renovação tecnológica do Dia das Bruxas e buscam uma celebração mais radical. Para estes, desde 2004 o site Extremepumpkins.com – apesar do design desatualizado – traz novidades pretensamente terríveis no que diz respeito a fotos de abóboras horripilantes.

Quem não ficar satisfeito com a brincadeira pode conferir a lista feita pelo Concierge.com, um site de viagens que entrou mesmo no clima de terror e acabou se destacando no ranking do Digg: eles aproveitaram a época do ano para fazer uma lista das comidas mais assustadoras do mundo. O resultado é para estômagos fortes: nem a abóbora mais vampiresca dá tanto medo quanto o churrasquinho de morcego.


Twitter como disciplina obrigatória e mais

Outubro 26, 2009

University Makes Twitter a Required Class for Journalism Students – Isso mesmo, uma universidade da Austrália criou uma disciplina – obrigatória – sobre potenciais usos jornalísticos do Twitter. Como diz o Mashable, o fato de alguns alunos nem saberem do que se trata o Twitter comprova a necessidade da cadeira. Não imagino algo parecido no Brasil por dois motivos: 1. a cadeira demoraria pelo menos 5 anos pra ser criada e 2. nós por aqui somos viciados em mídias sociais, me parece. Especialmente entre os mais jovens, aderimos facilmente e encontramos usos muito criativos para as ferramentas.

Topsy – uma ferramenta de busca cujos resultados são baseados em um ranking de tweets, ou seja, considera “o que se está falando por aí” sobre um determinado assunto. Interessante.

O que são mídias sociais? – Um vídeo postado no blog do Tiago Dória no ano passado, mas que é muito didático e engraçadinho. Pra quem não tem noção alguma do assunto, é um ponto por onde começar.

A people’s history of the internet: from Arpanet in 1969 to today – o Guardian pediu a seus leitores que enviassem imagens e relatos desses 40 anos de história da internet e depois montou uma linha do tempo juntando informações da reportagem com esses dados. A linha do tempo é ótima, dá pra lembrar de bastante coisa legal. Porém, não sei se fui eu quem vi muito rápido, mas não identifiquei tanta coisa assim do conteúdo enviado pelos leitores. De qualquer forma, vale a visita.


Jornalismo cidadão: no fio da navalha

Setembro 29, 2009
The space for the audience to participate in journalism is, by and large, clearly delineated. The public can send in their news tips, photos and videos, but the journalist retains a traditional gatekeeper role, deciding what is newsworthy and what isn’t. There is little room for the public to be involved in the actual making of the news — in deciding whom to interview, how to frame the story and how to produce it. Once the story is complete and published, the audience can freely comment on the final product.

The space for the audience to participate in journalism is, by and large, clearly delineated. The public can send in their news tips, photos and videos, but the journalist retains a traditional gatekeeper role, deciding what is newsworthy and what isn’t. There is little room for the public to be involved in the actual making of the news — in deciding whom to interview, how to frame the story and how to produce it. Once the story is complete and published, the audience can freely comment on the final productAlfred Hermida, Mainstream Media Miss the Point of Participatory Journalism

A audiência ainda é a audiência, conclui sem disfarçar a decepção o texto acima, publicado no MediaShift. O artigo analisa os trabalhos que tratavam participação do público na produção do conteúdo apresentados na Future of Journalism conference. E traz muitos elementos interessantes sobre os quais as pessoas que trabalham com isso podem refletir. Na minha opinião, o mais interessante é este:

O que representa o conteúdo gerado pelo usuário? É uma forma que os meios de comunicação têm de tirar vantagem de seus leitores, que enviam fotos, vídeos e notícias gratuitamente a seus veículos favoritos sem serem pagos por isso? É uma forma de gerar tráfego no site, já que abrimos as portas para comentários em que os leitores ficam debatendo (ou falando sozinhos, todos juntos) dentro de nossas páginas? É uma forma de ampliarmos para a sociedade a participação na construção de uma notícia? É uma forma de os leitores direcionarem o foco das atenções para problemas de suas comunidades que não teriam outro lugar (não com tanta repercussão) para se exibir com destaque?

Da minha modesta experiência, acredito que é tudo isso ao mesmo tempo e depende, acima de tudo, do modo como os jornalistas gerenciam (ou não) a participação dos leitores e de como estes próprios leitores decidem se apropriar destes espaços. É claro que o primeiro fator pesa muito mais – e não depende apenas da visão individual de um profissional, mas certamente tem a ver como o modo como aquele veículo entende que devem ser os espaços de participação.

De qualquer forma, tenho dúvidas se o fato de a audiência ainda ser a audiência é ou não algo a se lamentar. Não acredito que qualquer veículo que pense um pouco sobre o tema realmente tenha um conceito de audiência (e do seu papel) igual ao que tinha há 10 anos. Tenho certeza que este é um conceito bastante mutante.

Por outro lado, quando falamos de grandes veículos, com décadas de história, temos que lembrar que a audiência não é somente o cidadão que quer participar, que quer debater a construção da notícia, que quer se engajar na definição da linha editorial. A audiência é também quem lê, assiste, ouve e confia naquela informação porque confia nos profissionais que trabalham ali. Para a audiência que lê, pode não interessar muito se esse profissional é ou não um jornalista, mas interessa que a informação seja precisa e contextualizada.

E talvez dois grandes aspectos a serem trabalhados para uma transposição desta dicotomia entre o pensamento do jornalismo cidadão “democratizante” e o “aproveitador” sejam os seguintes:

1. a visão que o próprio jornalista tem do seu papel quando trabalha com este tipo de conteúdo: quero ganhar mais pagando nada (ou quase nada)? quero promover debates relevantes? quero valorizar problemas de uma comunidade? quero fotos sensacionalistas? quero milhares de pessoas falando sozinhas ao mesmo tempo? Claro que nenhum dos itens exclui os demais e claro que tudo também depende das condições de trabalho, especialmente do tempo, disponíveis para esta tarefa. Mas parar e pensar sobre isso me parece um primeiro passo.

2. a disseminação mais ampla de conhecimentos sobre técnicas e regras básicas do jornalismo para a audiência interessada na produção de notícias. Acho que seria extremamente enriquecedor que pudéssemos passar para um nível acima do envio de fotos de acidentes ou tragédias climáticas, que fôssemos capazes de fornecer instrumentos para as pessoas contarem melhor as histórias e notícias que testemunharam – seja numa participação eventual ou entre aqueles mais engajados. Que o jornalista conseguisse se colocar como um mediador que não simplesmente pede, seleciona ou edita histórias, mas oferece ferramentas para que as pessoas compreendam suas histórias e tornem-se capazes de contá-las aos outros de forma que façam sentido.

E nada disso é fácil, mas acho que são elementos mínimos em que devemos pensar quando falamos do significado da expressão “jornalismo cidadão“.


TimesPeople e o Twitter

Setembro 10, 2009

Descobrir, guardar e categorizar, compartilhar e “ranquear” conteúdo são algumas das atividades que eu pessoalmente acho mais divertidas na internet. Não sei se é por isso que simpatizo tanto com o TimesPeople - a “rede social” do NYT. Mesmo que tenha pouca gente que eu conheço lá dentro. Há um tempo atrás, eles lançaram um aplicativo e se integraram ao Facebook. Agora, estão conectados ao Twitter. Sem dúvida, são estímulos bem fortes para angariar adeptos já que, no começo, era uma rede muito fechada em si mesma. Se vai ou não atingir os resultados que eles gostariam, só esperando para ver.

A notícia vem do Mashable.


Que cara vai ter a internet em 40 anos?

Setembro 7, 2009
Dizem

Estreando lá nos blog Pense WWW com um post sobre o presentão que o Google está dando nos 40 anos da internet. Como diz o Lula: será o Google Wave uma dádiva ou uma maldição? No momento, é uma promessa. E, como tal, dá bastante liberdade para nossa imaginação. Basta assistir ao vídeo abaixo e deixar as ideais fluirem:


Prêmio para inovação em jornalismo online

Setembro 4, 2009

Foram anunciados nesta semana os finalistas do 10° Prêmio Anual de Jornalismo Online, concedido pela Online News Association. Navegando rapidamente entre os indicados (não consegui ver todos de todas as categorias), já deixo guardados aqui alguns links para reportagens que me chamaram atenção especialmente por serem histórias realmente fortes do que pela inovação no uso das ferramentas online. Aliás, seria bastante vazia essa história de inovação se não servisse exatamente como recurso para contar histórias interessantes.

- The Girl in the Window

- The Culture of Resistence

- Pregnant with cancer

Claro que tem muito mais. Confere a lista completa.


Socialmediafobia

Agosto 15, 2009

As redes sociais ultrapassaram a pornografia como atividade de maior interesse na internet. É o que diz o vídeo publicado pelo blog Socialnomics. E mais: 78% das pessoas confiam em recomendações de seus conhecidos, enquanto apenas 14% dá crédito à publicidade. Como já dizia o slideshow anterior, se a sua empresa ainda não presta atenção em mídias sociais não está apenas perdendo dinheiro, está pedindo pra afundar de forma rápida e irreversível. Porque todas as outras estão ligadas. E as mudanças sobre as formas de comunicação e negócios são inevitáveis e imprevisíveis. Tentar acompanhar as novidades é enlouquecedor. Agora que você finalmente entendeu o Orkut, aparece o Twitter. E o que fazer? Criar sua rede? Investir nas que já existem? Como saber o que é modinha e o que modifica de fato a estrutura do modo como nos relacionamos?

Se formos falar sobre jornalismo apenas, não falta quem mencione o eminente fim dos jornais. Para que serve um jornalista? Como deve ser seu perfil profissional? Como as pessoas consomem notícias? O que é relevante para elas? Quais redações estão acertando ou errando na implacável luta pela sobrevivência, pela atenção da audiência? Para muitos, é como perder o chão: como se nada do conhecimento conquistado até agora servisse para qualquer coisa. Como se estivéssemos passando por um portal, rumo a um mundo totalmente novo.

Nem o Google se salva: de acordo com as estatísticas do vídeo, cada vez menos as pessoas fazem buscas e cada vez mais elas esperam encontrar (ou ser encontradas) produtos de seu interesse nas redes das quais fazem parte. O novo mundo é baseado em streaming de conteúdo e recomendações de amigos, em reputações construídas e destruídas em votações online e em comentários ligeiros no Facebook.

Tentar entender e, melhor ainda, tentar tirar proveito dessas novidades pode ser assustador. E talvez seja tentador simplesmente tentar ignorá-las o máximo de tempo possível. Não duvido que muitas pessoas acabem desenvolvendo uma espécie de “socialmediafobia”: tanto quem começa a tentar desvendá-las de boa vontade e se sente incapaz de acompanhar todas as novidades, quanto quem lê uma reportagem sobre a planta que “tuíta” quando precisa de água e concluí rapidamente que isso tudo é uma grande bobagem. Eu chutaria que, em breve, esse deve virar um transtorno de ansiedade comum em executivos e empresários em geral. Isso sem falar em jornalistas.

Se você já está se sentindo oprimido pela necessidade de entrar nessa onda (sob o risco de se afogar se não conseguir surfá-la), recomendo uma respiração profunda e a leitura deste texto: Don’t keep up with social technology. Pode parecer um conselho suicida, mas não. Trata-se de uma luz de bom senso entre tantos holofotes descontrolados sobre as redes sociais.


Como sexo na adolescência?

Agosto 4, 2009


Não existe molho de tomate perfeito

Julho 21, 2009

Não que caminhadas por si só não possam ser iluminadoras, mas resolvi dar uma força e, nos últimos dias, baixei algumas palestras do TED. Aí topei com Malcom Gladwell, que me parece uma criatura muito interessante mas cujos livros não estão no topo da minha lista de prioridades. Ok, neste vídeo de 2004 ele fala sobre molho de tomate. Quase 20 minutos de fala sobre molho de tomate. Curioso. E melhor: na verdade, o discurso é sobre felicidade.

Para Gladwell, poucas pessoas fizeram tanto pela felicidade dos americanos quanto Howard Moscowits. Isso porque partiu dele o seguinte insight: não existe molho de tomate perfeito. Até então, toda indústria alimentícia buscava um sabor ideal para seus produtos. A mostarda perfeita. A Pepsi perfeita. Baseados na receita mais próxima à original (o molho de tomate como o dos italianos) ou no resultado do gosto médio de um grupo de testes, chegava-se ao conteúdo das latas que iriam para as prateleiras dos supermercados. Mas o que agrada em um país pode não servir para outro, e a média é um número do qual, na verdade, ninguém gostou muito.

O que Moscowitz propôs foi: vamos esquecer o molho de tomate perfeito. Vamos oferecer várias opções: com mais ou menos alho, mais ou menos pimenta, mais ou menos consistência! Parece simples, não? Mas eu ainda lembro de quando ia no super e as escolhas eram simplesmente entre as marcas: xampu era xampu. Não existiam corredores inteiros dedicados a milhares de modalidades de xampu – o que é divertido para alguns, mas pode ser uma tortura para quem simplesmente quer um xampu, sem precisar refletir muito sobre o assunto.

Mas Gladwell não estava tão preocupado assim com os sabores de molho de tomate neste vídeo. A conclusão da palestra é singela: Moscowitz contribuiu para a felicidade das pessoas porque colocou em evidência a defesa da diversidade. Ninguém é obrigado a gostar do que a média das pessoas gosta. Há espaço para a diferença (e até para ganhar dinheiro com ela). E a lição é: ao abraçarmos a diversidade dos seres humanos, vamos encontrar um caminho para a felicidade.

Assisti no ano passado na PUC uma palestra com David de Ugarte sobre redes sociais e internet. A frase mais repetida pelo David durante toda aquela tarde foi “não existe molho de tomate perfeito”. O que isso tem a ver com redes sociais e internet? Tudo. A internet representa a emergência de um novo ecossistema da informação, em que predomina a lógica da abundância. Ainda mais do que no mundo dos molhos de tomate, de maneira geral a nova era das redes distribuidas permite a liberação dos centros de distribuição. O principal paralelo é entre jornais e blogs: os primeiros são filtros de informação, os segundos são disseminadores:

Assim como o software livre representa um novo tipo de bem público não-estatal, a blogosfera é um meio de comunicação distribuído, público, gratuito e transnacional, a primeira esfera pública democrática real e praticamente universal. Se a mídia, e sobretudo a televisão, havia privatizado a vida pública e o debate político, reduzindo o imaginário a um espetáculo totalitário produzido industrialmente segundo os mesmos padrões da produção das coisas, a blogosfera representa o começo de uma verdadeira reconquista da informação e do imaginário como criações coletivas e desmercantilizadas (O poder das redes, p.42)

As multidões de blogueiros criam multidões de sabores diferentes de informação misturada a relatos de vida, pensamentos, projetos, compartilhamento de links de notícias, conversas… Nenhum deles é perfeito mas, juntos, fazem emergir uma infinidade de escolhas a que as pessoas podem aderir em experiências momentâneas de satisfação. Nenhuma filiação precisa ser permanente. É uma configuração de troca de informações totalmente diferente da experiência do jornalismo até agora. E que papel têm os jornais nessa busca extremamente individualizada pela felicidade?